terça-feira, 21 de junho de 2016

JOÃO CARVALHO

PARA QUANDO UMA OPORTUNIDADE?




Conta-se que o olheiro do Manchester United na Irlanda do Norte enviou um dia um telegrama muito curto para o treinador Matt Busbby.

«Acho que descobri um génio», escreveu apenas Bob Bishop.

O génio do telegrama era George Best, que por essa altura tinha 15 anos e jogava nos amadores de Gregagh Boys, nos arredores de Belfast.

A partir daí, o jovem irlandês viajou para Inglaterra, cumpriu um período de testes e assinou contrato, dando início a uma história enorme e que, como as melhores obras, começou com um pormenor delicioso: um telegrama também ele genial.

Esta só não é, aliás, a minha história preferida de George Best, porque ele uma vez recordou o dia em que, com 27 anos, emigrou para os Estados Unidos.

Curiosamente fê-lo com uma frase admirável. Como era típico de George Best.

«Quando fui jogar para os Los Angeles Aztecs arranjaram-me uma casa espectacular em frente ao mar. Só tinha um problema: para chegar à praia tinha de passar por um bar. Nunca pus os pés na areia.»

Mas voltando atrás, ao telegrama de Bob Bishop, importa dizer que às vezes não é preciso muito: basta um pormenor ou outro para perceber que se está perante algo especial.

É mais ou menos o que sinto quando olho para João Carvalho.

O miúdo do Benfica B, que acabou de completar 19 anos e ainda é por isso apenas um júnior, tem a elegância dos craques. Basta ver a forma como joga de cabeça levantada, como se a bola não precisasse de o fitar nos olhos para cumprir as ordens sem hesitar.

Jogar de cabeça levantada é daqueles pormenores que não engana.

Mas há mais. Sempre de pé direito, tem um toque aveludado, como se as botas estivessem almofadadas: a bola chega rebelde e insurgente, mas serena num instante. João Carvalho pode então levantar a cabeça para fazer o futebol fluir e a equipa jogar.

Ora transporta a bola, ora joga de primeira, ora toca rápido. O miúdo não é um jogador de grandes correrias, de fintas e mais fintas, de remates absurdos.

É todo o contrário: calmo e tranquilo. Um líder silencioso que pega na bola e a trata com carinho. É enfim um jogador raro: inteligente, perspicaz, habilidoso.

Quem o vê conduzir a bola de cabeça levantada, descobrir linhas de passe e aparecer em zonas de remate, quem o vê enfim fazer tudo isso com uma simplicidade desarmante, não pode deixar de se lembrar de Rui Costa aos 19 anos.

É certo que comparações destas são perigosas, mas caramba: João Carvalho não ajuda nada. Nem sequer no gesto de puxar o cabelo suado para trás para o afastar dos olhos.

Por isso ao vê-lo no domingo em Alcochete, no dérbi dos bês, deliciei-me.

É certo que não foi o melhor em campo, mas também não precisou: aos 19 anos o talento não está nos grandes feitos, está nas pequenas coisas que um dia embrulharão os grandes feitos. E João Carvalho tem várias dessas pequenas coisas.

Posso estar enganado, mas acho que o Benfica descobriu um génio.

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