domingo, 26 de junho de 2016

GRANDES NOMES

RIBEIRO DOS REIS


Natural de Lisboa — 10 de Julho de 1896 a 3 de Dezembro de 1961

A paixão tem coisas assim. António Ribeiro dos Reis, nos seus primeiros tempos de jogador de futebol, ia a pé de Santo Amaro, onde morava, até ao campo do Benfica, em Sete Rios. Era como que o seu aquecimento. Depois do treino ou do jogo voltava pelo mesmo caminho. Costumava dizer que a Rua Maria Pia lhe parecia muito mais comprida no regresso. Era jogador, mas ainda não tinha botas de futebol. Usava as de passeio, reforçadas com ligaduras de pano, para evitar estragos. Talvez assim se prolongasse a sua vida. Para que a família, de não muitas posses, não entrasse em despesas supérfluas.

Foi na Casa Pia, onde estudou e aprendeu a ser homem, que descobriu o fascínio do futebol. E do atletismo. A 2 de Novembro de 1913 disputou o seu primeiro jogo com a camisola do Benfica, no Campo de Sete Rios, pelas terceiras categorias, contra o Sacavenense, vencendo por 8-0. Tinha 16 anos. Nesse ano foi campeão de Lisboa de terceiras (o equivalente hoje aos juvenis), mas o seu talento deslumbrara de tal forma que o puseram a jogar, também, em segundas categorias. O Benfica voltou a ganhar. E, assim, no ano da sua estreia, Ribeiro dos Reis ganhou dois Campeonatos. Não poderia ser mais auspicioso o debute. Em 31 de Dezembro de 1914 estreou-se na primeira categoria do Benfica, em San Sebastian. E na primeira categoria continuou até 18 de Janeiro de 1925. Só de lá sairia 11 anos volvidos. Mas não era homem de um só ofício. Ou de uma só paixão. Antes pelo contrário. Um ano após a sua chegada ao Benfica iniciou a carreira de jornalista desportivo, em o Sport Lisboa, com um artigo sobre Jean Bouin, que, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, dois anos antes, tinha travado duelo emocionante com o finlandês Kolehmainen, nos 5000 metros. «Estava-se no princípio da I Grande Guerra. A
França fora invadida pela Alemanha e nas trincheiras francesas batiam-se alguns dos seus
melhores campeões. Numa tarde de Outubro desse ano de 1914 os jornais trouxeram-nos a notícia da morte de um valoroso atleta e destemido patriota: Jean Bouin. Foi com um
artigo sobre a sua vida e o sentido da sua heroicidade que entrei no jornalismo.»


Se não foi futebolista de classe excepcional, nunca deixou de se revelar de grande utilidade no Benfica, pela sua estonteante velocidade (que lhe valera títulos de campeão de atletismo na estafeta do Benfica) e pelo seu espírito de luta. Mas, sobre as suas características de batalhador valoroso, é de anotar a sua propensão para aproveitar todas as oportunidades, fixada numa passagem de um Perfil à Pena publicado em A BOLA:
«Metia golos com a canela para serem mais saborosos.»


Em 18 de Janeiro de 1925, Ribeiro dos Reis pendurou as botas. Antes do seu último jogo, José Pimenta, então capitão da equipa do Benfica, entregou-lhe, em nome de todos, um tinteiro de prata. Era, mais que um signo, a profissão de fé no jornalista brilhante que haveria de ser. Se como jogador e jornalista pediu meças aos melhores, na história do futebol ficaria, também, como treinador, como seleccionador, como árbitro, como dirigente modelar. Ao seu jeito de homem bom. Secretário-geral da FPF, presidente da Assembleia Geral do Benfica, anos a fio, Águia de Ouro. Em Janeiro de 1943 o Benfica quis prestar-lhe a homenagem que merecia, justificando-a assim: «Vibrante, sincera, grandiosa, mas sem o falso esmalte protocolar, a alguém do desporto nacional, homem de espírito forte e forte acção, que tem lutado sempre com a mesma fé, indiferente à maledicência, alheio aos manejos da baixa política desportiva. Os murmúrios dos despeitados e dos maldosos nunca o fizeram vacilar no caminho recto.» Ao que ele, emocionado, dourando as palavras com a humildade que sempre o caracterizou, retorquiu: «Trouxe-se demasiado à boca de cena o indivíduo. É justo esbater a sua figura para fazer surgir em seu lugar a colectividade que o formou, em que ele se fez gente. As homenagens que me foram aqui prestadas endereço-as ao Benfica, em cuja escola de virtudes temperei o meu carácter.» Sempre foi assim — homem de carácter. Que a paixão rubra não cegava. Por exemplo, em 1933, num jogo entre o Benfica e o F. C. Porto, nas Amoreiras, o árbitro espanhol Ramon Melcon expulsou Vítor Silva, a estrela do Benfica, por mal percebida agressão a Miguel Siska. Gasolina nas labaredas! Os adeptos benfiquistas protestaram, ululantes, o capitão recusou abandonar o campo, o árbitro pediu ajuda policial, exigindo ao guarda que desse voz de prisão ao jogador, por desrespeito à autoridade. António Ribeiro dos Reis saltou das bancadas, abeirou-se de Vítor Silva, deu-lhe um raspanete, pegou-lhe no braço e pô-lo na rua. Os benfiquistas calaram-se. Os portistas bateram palmas...

Selecção por... bambúrrio

Em 17 de Dezembro de 1921, Ribeiro dos Reis envergou a camisola de Portugal, no primeiro jogo da Selecção Nacional, contra a Espanha. Nessa equipa estava, também, Cândido de Oliveira. Os caminhos continuariam cruzados pela vida fora. Mas, para Ribeiro dos Reis, a sua internacionalização fora... um capricho dos deuses. «Fui internacional um pouco por bambúrrio, por casualidade. Alguns dos candidatos mais categorizados amuaram, não compareceram ao último treino e eu tive a sorte de fazer, nessa tarde, uma exibição acertada, sobre um terreno enlameado, em que geralmente me saía sempre bem.



Nesse primeiro Portugal-Espanha desempenhei vários papéis: fui o avançado-de-centro da equipa; a seguir ao jogo tive de escrever a crónica telegráfica para O Sport de Lisboa, onde era redactor; e, por fim, no banquete, na altura dos brindes, tive de ler o discurso da Federação Portuguesa, pois o delegado oficial, sr. Raul Nunes, mal podia falar devido a uma inflamação da laringe...»

A alpercata de Albino...

Nunca quis fazer de ser treinador modo de vida. Quando o Benfica entrava em crise... técnica, António Ribeiro dos Reis era convidado a tomar conta da equipa. Em jeito mais ou menos sebastiânico. Sempre gratuitamente. Assim, viveu alguns momentos de glória. E engrandeceu a história do seu clube. Mas, pela vida fora o diria, vezes sem conta, a conquista mais arrebatante foi o Campeonato de Lisboa de... 1932. Havia 13 anos que os benfiquistas não ganhavam nada, no futebol, ao nível das primeiras categorias, ofuscados pelo Sporting e pelo Belenenses. Era um treinador com olho de lince, como se percebe bem por uma história contada por Augusto Amaro, guarda-redes do Benfica nesse tempo de vacas magras: «O Albino não chutava com o pé esquerdo. Tinha a mania de que não era capaz. Um dia, na cabina, antes do treino, Ribeiro dos Reis chamou-o e disse-lhe que não voltaria a treinar-se com a bota no pé esquerdo e que em seu lugar teria de calçar uma alpercata.

Foi remédio santo. Não muito depois, Albino já era um rematador temível com o pé que pensava que era cego...»

A cantiga da chacota e o horror...

Entre 1921 e 1924, os comandos da Selecção Nacional estavam entregues a um comité que chegou a ter... seis elementos. A escolha dos jogadores era por votação.

Democraticamente. O sistema não funcionou. Foi preciso boleá-lo. Por isso, em 1924, Ribeiro dos Reis foi investido nas funções de seleccionador... único. Com plenos poderes.

Ainda nem sequer deixara a sua carreira de jogador, o que ainda mais mérito dá à escolha. Depois de uma derrota com a Espanha (0-2), em 17 de Maio de 1924, Portugal regista um feito histórico: a primeira vitória da Selecção, contra a Itália (1-0). Para apostar com mais ardor na carreira militar, Ribeiro dos Reis cedeu, em 1926, o cargo a Cândido de Oliveira. A seleccionador voltaria oito anos depois. Sob maus ventos...

O apuramento para o Campeonato do Mundo de 1934 pôs frente a frente Portugal e Espanha. Aqueceram-se esperanças. Mas, uma tarde aziaga em Chamartin dissiparia todos os sonhos. Os espanhóis ganharam por 9-0! Foi o tal jogo em que nas bancadas se gritou, em chacota, para o banco de Portugal: «Ponga los dos.» Na baliza estava o portista
Soares dos Reis, que se treinava... apanhando coelhos que o técnico libertava no campo.


Ainda nem sequer chegara o intervalo, já Portugal perdia por 0-5 e Soares dos Reis foi substituído pelo benfiquista Augusto Amaro. Os golos continuaram a entrar. E os espanhóis a gritar cada vez mais... «ponga los dos, ponga los dos»!

Ribeiro dos Reis nem sequer fora a Madrid. Ficara em Lisboa porque a sua mãe adoecera gravemente. O comando da equipa foi entregue a Ricardo Ornelas. A táctica e as susbtituições foram combinadas em Lisboa. A oito dias de distância. Era assim o futebol desse tempo. A goleada deixou Portugal humilhado. Contra Ribeiro dos Reis lançou-se uma campanha de hostilização, por vezes peripatética. E até se criou um êxito revisteiro que era mais um remoque: «E se a Selecção trabalha/como eu quero/Agora é que não falha/Nove a zero.» Oito dias depois, no Lumiar, os espanhóis voltaram a ganhar. Mas apenas por 2-1. Ribeiro dos Reis sentiu-se melhor com a sua consciência. Mas como ele próprio diria, «tomou horror ao cargo». E nunca mais quis ser seleccionador nacional...

As meias e as multas...

Foi árbitro e patriarca dos árbitros. Escreveu quilómetros sobre as leis do futebol. O seu prestígio levou a que fosse o primeiro português nomeado para o Comité de Arbitragem da FIFA. Foi por essa altura que se decretou, no futebol, a proibição de se jogar com as meias em baixo. Uma vitória sua. Capricho de uma vida. Batalha de muitos anos. 

Ribeiro dos Reis não admitia que futebolista da sua equipa jogasse com as meias em baixo, mesmo quando isso ainda não era proibido. Quem o fizesse era multado em 10 escudos, ou em 50 no caso de reincidência. Era no tempo em que os ordenados andavam à volta dos 500 escudos. Dizia que era tudo questão de estética e que o jogador de futebol tinha de estar no campo com beleza. Como um militar com o seu aparato.

Talvez esse fosse o único sinal de prepotência dos seus métodos de treinador. Um treinador obcecado pelo futebol de... ataque. Augusto Amaro desvendaria: «O Ribeirinho, que era a alcunha dele quando jogava futebol, pensava que os jogos só se ganham marcando golos. Quando passou a treinador, manteve o mesmo espírito. Não admitia que um jogador não conhecesse as leis do jogo. Tratava todos da mesma maneira, mais parecendo um irmão mais velho. Nunca nos culpava das derrotas, mas chorava, muitas vezes, de alegria, por nós termos ganho. Mas o mais impressionante é que, sendo ele o principal obreiro disso, achava sempre que o mérito era dos outros.»

Saber ganhar...

Como treinador a tempo intermitente, Ribeiro dos Reis assinou o seu último (e, se calhar, mais significativo) título em 1953. Obviamente, ao serviço do Benfica. Outra vez em missão de salvamento. Foi como um duelo fratricida. É que do outro lado estava Cândido de Oliveira, como treinador do F. C. Porto. O Benfica ganhou por 5-0. Os benfiquistas festejaram a vitória, em jantar, num restaurante de Alvalade, com os portistas como... convidados especiais. Porque, para Ribeiro dos Reis, não havia no futebol nada que se sobrepusesse ao fair play ou ao respeito dos vencedores pelos vencidos. Era assim...